Para a próxima pede um bitoque, mas sem o bife.

O Toni já percebeu que está sempre a fazer asneira. Parece que não tem emenda.
Na semana passada o Toni almoçou no tasco perto de casa, fechou os olhos e ouviu a luxuosa descrição dos pratos. Por momentos esqueceu a crise, respirou fundo e consumido pela luxuria pediu um bitoque. Confessou-me que se sentiu bem no momento, mas esta semana tudo mudou. Ao ouvir a entrevista da presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, Isabel Jonet, Toni percebu o erro que tinha cometido e foi invadido pelo remorso eterno de quem comete um pecado capital.
Com as lágrimas nos olhos começou a praguejar contra todas as pessoas que com pouco dinheiro e muitos dependentes, optam por  comprar 100gr de bife do lombo em vez de 1Kg de entremeada.
Em posterior meditação, e ainda preenchido pelo remorso, Toni começou a ver como tudo fazia sentido e como tinha sido cego até então. Lembrou-se do divertido jogo do pão velho, tão bem descrito por Ricardo Araújo Pereira, e concluiu que existem formas económicas e didácticas para poupar dinheiro.
Disse-me Toni que para além disso, o encerramento dos produtores de bovinos liberta espaço e recursos alimentares. Os pastos e os currais poderiam ser geridos pelo banco alimentar. "Se a ração e as ervinhas não fazem mal à bichesa, a nós também não nos há de fazer."
Entrou, então, numa linha paralela de raciocínio. Analisando as benditas palavras de Isabel, realmente não se pode comer bifes todos os dias, correndo riscos de desequilíbrio nutricional. Em êxtase começou a ver alternativas: Toni Pensou, "E que tal um bacalhau?". Não pode ser é a 8€/Kg ainda é mais caro que o bife do acém. Após alguns momentos de silêncio, sorridente gritou: "Já sei! Pescada!". Também não dá. A nº5 do chile congelada ainda é mais cara que o bacalhau. Estava aflito, mas eis que num momento épico de lucidez e com os braços levantados aos céus descobriu as sardinhas. Foi ver o preço e de facto também não é solução, e mesmo que fosse o que é que comia quando chegassem os preços loucos dos santos populares? Resultado, Toni percebeu que também tem de cortar no peixe.
Sobram as hortaliças, alguns legumes e talvez os cogumelos em lata (só para não descompensar nas proteínas).
E a história das radiografias e dos concertos? Toni ficou mesmo satisfeito ao ver que ainda existem pessoas que dizem a verdade doa a quem doer. Ainda este verão houve um tipo do bairro do Toni que partiu um braço, e como o dinheiro da taxa moderadora já estava canalizado para o "rock in rio", o "magano" não quis ir ao hospital. Dizia ele que com os saltos, no concerto, a coisa ia ao lugar.
Toni afirmou que estava certo que existem muitas pessoas a viver da miséria alheia, mas a avaliar pela moderação e sensibilidade social das declarações desta semana, conclui que a Presidente do Banco Alimentar  não é uma delas.
Para a semana o Toni vai outra vez ao tasco, mas agora já não o enganam. Vai pedir um bitoque, mas sem o bife.



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